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Maior feiticeiro da África diz que já “ajudou espiritualmente” mais de 1700 pastores

New York Times e Programa do SaharaTV ajudam a reascender antiga polêmica

por Jarbas Aragão


Criado em 2011, o Sahara TV é um canal televisivo totalmente online. Considerado inovador para a realidade do continente africano, é chamado de o “Wikileaks da África”, por suas matérias reveladoras.

Seu programa sobre religião tradicional africana, que foi ao ar neste domingo, reacendeu uma antiga polêmica. Por que os cristãos de muitas nações africanas continuam recorrendo à magia negra e os deuses de seus antepassados? O foco da discussão foi centrado nas declarações de Nana Kwaku Bonsam. Considerado o maior feiticeiro da África Ocidental, ele recentemente passou um ano nos Estados Unidos, onde começou um projeto para modernizar os ensinamentos da religião tradicional africana, passando a divulgá-los pela internet para qualquer pessoa interessada.

Seu projeto foi mostrado em uma longa matéria no jornal New York Times, onde voltou a repetir uma de suas declarações bombásticas: mais de 1700 pastores já o procuraram buscando “ajuda espiritual”. Como conciliar isso com o ensinamento bíblico? Afinal, seu apelido “Bonsam”, significa literalmente “demônio” na língua Twi.

Em Gana, seu país natal, Nana Kwaku, 39 anos, é uma celebridade. Casado pela terceira vez, já tem 14 filhos (nove deles são adotados). Coordena um verdadeiro império religioso, formado por uma rede de templos e uma escola de feiticeiros, além de casas, carros e uma fazenda de gado em seu nome. Ele aparece regularmente em programas televisivos em seu país e vários de seus eventos reúnem uma multidão de pessoas que procuram pela “benção”. Já fez suas cerimônias em vários países do mundo, especialmente onde há imigrantes ganeses.

Kwaku Bonsam afirma ser capaz de resolver qualquer tipo de problema, desde maldições até os mais graves problemas de saúde. Atualmente, dedica-se para modernizar a religião tradicional, opondo-se abertamente aos pastores e missionários cristãos. Desde 1992, quando a nova constituição de Gana foi aprovada oferecendo maior liberdade religiosa, começou uma verdadeira guerra espiritual no país. Pastores, especialmente os pentecostais, passaram a usar televisão, rádio e Internet para criticar quem usa os rituais tradicionais, classificando-os como feitiçaria e adoração ao diabo.

A maioria dos feiticeiros de Gana preferiu não reagir. Mas Bonsam se tornou uma espécie de “porta voz” dos sacerdotes fetichistas, como são chamados. Seu nome de nascimento é Stephen Osei Mensah e era membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na pequena aldeia de Afrancho. Sua vida mudou após um acidente em 1992, quando tinha 19 anos. Certa noite, voltava para casa segurando uma lanterna quando acidentalmente passou sobre um encanamento de gás defeituoso. A eletricidade da lanterna foi suficiente para provocar uma explosão que queimou a maior parte do seu corpo.

Após se recuperar, ele afirma ter recebido seus poderes sobrenaturais após o “presente mágico”, que recebeu de um homem. Era um fetiche, feito com pelos trançados da cauda de um cavalo, que lhe permitiriam ajudar outras pessoas. A partir de então disse ter recebido visita dos deuses dos seus antepassados e começou a fazer “consultas” na sala da casa de sua mãe. Sua fama se espalhou e logo ele construiu um santuário na cidade. Foi nessa época que assumiu o apelido “Bonsam” dizendo ser uma resposta às contínuas acusações de fazer a “obra do demônio”, como afirmavam os pastores.

Em Gana, 71% dos 25 milhões de habitantes se identificam como cristãos, enquanto apenas 5% dizem seguir a religião tradicional, indica o Censo de 2010. Contudo, Kwabena Asamoah-Gyadu, professor do Cristianismo Africano no Trinity Theological Seminary, de Acra, capital de Gana, disse que esses números não correspondem à verdade, pois a maioria das pessoas tem vergonha de admitirem que recorrem regularmente à feitiçaria.

Durante sua estada em Nova York, Nana Kwaku Bonsam fez várias cirurgias plásticas para tentar melhorar a aparência de seu rosto, ainda coberto pelas cicatrizes do acidente de 20 anos atrás. Aproveitou para recrutar pessoas que o ajudam a montar e divulgar, com o auxílio das redes sociais, uma espécie de “consultório virtual”, onde as pessoas podem ser aconselhadas por ele por escrito ou em conferências via Skype.

Sobre as críticas dos pastores, ele é enfático “Diga para as pessoas lerem Jeremias 23:16.” A passagem bíblica adverte: “Não ouçam o que os profetas estão profetizando para vocês; eles os enchem de falsas esperanças”. Também dispara “Ouça como eles pregam em suas igrejas… Por que eles andam de carro importado enquanto alguns membros da igreja passam fome? A própria Bíblia diz que todos nós devemos vender nossos pertences e partilhar com os pobres e necessitados. Alguns pastores hoje em dia estão praticamente sendo adorados pelos membros da igreja, enquanto o próprio Jesus era um pessoa humilde”.

Bonsam afirma estar farto de ser atacado publicamente por muitas pessoas que o procuraram em segredo. Segundo ele, já “ajudou” mais de 1700 pastores africanos com feitiços para que suas igrejas crescessem. Em 2 de abril de 2008, em um famoso episódio que chamou a atenção da mídia em Gana, Nana Kwaku invadiu a igreja de Collins Agyei Yeboah, um conhecido pastor pentecostal da cidade de Kato. Acompanhado por policiais e repórteres, ele acusou o pastor de pedir ajuda dos deuses, mas não pagar pelo serviço. Yeboah foi constrangido diante dos fieis a devolver um ídolo que lhe fora dado pelo feiticeiro. No vídeo gravado na ocasião, é possível ver o pastor se defendendo, mas acaba sendo levado pela polícia. Aparece dizendo que realmente tinha consultado Bonsam, mas nunca recebeu os poderes que lhe foram prometidos. No final, acaba devolvendo o ídolo.

Desde então, pastores pentecostais em Gana passaram a desafiá-lo regularmente para “batalhas espirituais” para provar quem possui o maior poder, mas os resultados não são visíveis. Curiosamente, com isso a popularidade de Bonsam “explodiu”, e ele passou a ser procurado constantemente por empresários e políticos de Gana e dos países vizinhos. A multidão que visita seu templo, que tem 18 salas, paga uma “oferta de gratidão” equivalente a dez reais, mais os custos do “ritual”. Ali são realizados sacrifícios de animais, e “poções” são preparadas e distribuídas. Supostamente elas ajudarão as pessoas a conseguirem o que desejam. Com informações de NY Times, My Zimbabwe e Sahara Reporters.


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