A maior ameaça à igreja não é o islã, é nosso mau testemunho, alerta teólogo

Sunday Bobai Agang recomenda que a Igreja faça uma autocrítica e revise sua teologia


A maior ameaça à igreja não é o islã, é nosso mau testemunho

O nome de Sunday Bobai Agang não é muito conhecido fora do continente africano, mas este professor de teologia e ética vem fazendo uma série de denúncias sobre a situação da Igreja na África, em especial na Nigéria, onde ocorre uma das maiores perseguições religiosas do mundo.



Além dos jihadistas do Boko Haram, grupo extremista ligado ao Estado Islâmico, membros da etnia fulani – de maioria muçulmana – também tem matado cristãos, queimado casas e igrejas em nome de Allah.

Agang acredita que, embora seja inegável o desdobramento de uma “agenda de islamização” em curso no mundo, a igreja de Cristo pode estar perdendo de vista uma ameaça que está “roubando o autêntico testemunho e a autoridade do cristianismo”. Para ele, isso é visto na teologia da prosperidade, que grassa nos púlpitos da África, bem como em boa parte das Américas.


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Na África, o islamismo entrou a partir dos países da África do Norte, como Marrocos e Egito. Embora tivessem uma longa tradição cristã, esta foi uma das primeiras regiões a ser conquistadas pela expansão inicial árabe-islâmica (séculos VII e VIII).



Logo, os cristãos africanos não são alheios aos conceitos de jihad (guerra santa) que hoje assusta muitos países ocidentais. Contudo, aponta o teólogo nigeriano, além da religiosidade, a corrupção em suas muitas formas se espalhou pelas nações onde ainda existe presença cristã.

Na Nigéria, por exemplo, o pastor Isaac Valentine Olori reclamou recentemente: “Estamos apreensivos porque a agenda do presidente Buhari está inclinada para a islamização deste país”. Ele também afirmou que “se um cristão pensa que está isento de sentir o terror da espada do Islã ele está enganado”.



A resposta de Agang, compartilhada por outros líderes cristãos do país, é que a Igreja deveria ter medo de algo mais perigoso do que essa agenda de islamização: a decadência ética e moral que coroa a vida pública dos cristãos.

“Não é que não acredite na possibilidade dos muçulmanos planejando islamizar o mundo. Nós, cristãos, muitas vezes estamos preocupados e aumentar nossa influência política, então por que deveríamos esperar algo diferente dos muçulmanos? Pelo contrário, me preocupo mais com a grave decadência moral e declínio ético que caracterizam agora o cristianismo em geral”, escreveu ele em um artigo reproduzido pela revista norte-americana Christianity Today.

Os editores da publicação entendem que o alerta de Agang de várias maneiras também serve para a Igreja fora da África.

“Hoje, muitos cristãos exibem estilos de vida decadentes e imorais. Nossa maior ameaça é o pecado em nossas próprias vidas. Esse pecado – qualquer pecado – é de fato letal. Precisamos colocar a nossa casa em ordem. A história está cheia de narrativas de grandes impérios e igrejas que caíram devido a sua falta de visão e corrupção. Assim, diante dos temores da islamização, não devemos esquecer o maior perigo, o pecado”, insiste o estudioso.

Entre os vários aspectos destacado por ele está o fato de “Muitos cristãos que ocupam cargos públicos tornaram-se corruptos ou imorais, traindo seu testemunho público”. Sendo assim, acabam por ser um forte argumento contra o cristianismo que professam. “Eles não têm integridade e não podem dar um forte testemunho moral e ético. Falta-lhes a virtude da honestidade na vida pública”.

O teólogo também reclama da maneira como a fé cristã é apresentada à sociedade. As propagandas se multiplicam, anunciando as próximas cruzadas e reuniões nas igrejas, com frases que confundem quem não pertence ao meio, não deixando claro que o centro da mensagem é Jesus. Elas parecem ser apenas uma desculpa para promover os líderes eclesiásticos.

A corrupção da prosperidade

Na avaliação de Agang, todas as denominações continuam empenhadas em evangelizar, e algumas continuam preocupadas em dar um bom testemunho com ações que refletem na prática o amor do Cristo que pregam.

Contudo, é inegável que a ênfase indevida na saúde e na riqueza mudou permanentemente a face do cristianismo nas últimas décadas. “Os pastores e os membros da igreja estão agora mais interessados ​​em construir edifícios bonitos do que alcançar os povos que não têm acesso ao evangelho. Muitos pastores estão obcecados com bens materiais, às vezes possuem um ou mais jatos particulares! A corrupção dos valores morais cristãos juntou-se ao culto do materialismo e do prazer. Nosso verdadeiro deus é agora mamom (Mt 6:24)”, acusa.

Ele conclui que há muitos cristãos “preocupados em guardar a nossa fé contra a ameaça da islamização, mas, ao mesmo tempo, se afundam na imoralidade, no materialismo e no paganismo”.

Enquanto as igrejas estiverem voltadas somente para si, relegando a segundo plano o cerne da mensagem da vinda do Reino – arrependimento, segundo Mateus 3:2 –  torna-se muito difícil elas serem vistas como sal e luz na sociedade.

Embora reconheça que não existe uma solução fácil para esse problema complexo, o teólogo sugere uma volta às origens, às palavras de Jesus. “Esse medo de uma agenda de islamização não pode nos desviar de nossa principal preocupação: sermos semelhantes a Cristo, pregarmos sobre uma vida santa e de integridade moral. Os que estão preocupados com a propagação do Islã, deveriam estar igualmente preocupados com o testemunho ruim que damos à nossa sociedade”.




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