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“Crossfit é a minha igreja”: a religião dos sem religião

Pesquisador afirma que academias são "uma experiência emocional e espiritual, além de física".


Homem na academia
Homem na academia. (Foto: Divulgação)

Um estudo do Instituto de Pesquisas Pew mostra a ascensão de um novo grupo religioso: os “sem religião”. A nomenclatura não se refere a pessoas sem fé, mas sem o hábito de frequentar um templo ou local de reuniões religiosas. Nos EUA, eles já são um terço dos adultos com menos de 30 anos.

Ao mesmo tempo, o estudo descobriu que muitos desses “sem religião” se afastaram de suas igrejas por terem experimentado algum tipo de desilusão com liderança, dogmas legalistas ou hipocrisia institucional.

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No entanto, o professor Casper ter Kuile, pesquisador da Escola de Divindade de Harvard, vem fazendo um estudo sobre “a identidade religiosa em uma era secular”. Publicado com o nome de “How We Gather” [Como nos reunimos] em co-autoria com Angie Thurston, o professor explora as maneiras como essa geração busca “sentido, sendo de comunidade e ritual na ausência de religião organizada”.

Seu estudo traça o perfil de cerca de 100 organizações onde a geração dos millenials – nascidos entre 1980 e 1995 – se reúne com frequência para buscar experiências significativas. Depois, selecionou o perfil de 10 organizações consideradas particularmente importantes nas vidas de seus frequentadores.

Chama a atenção que algumas academias de ginástica oferecem aos seus alunos mais do que uma chance de perder peso ou ficarem em forma. Elas funcionam, argumenta Ter Kuile, como verdadeiras religiões.

“As pessoas vêm porque querem perder peso ou ganhar força muscular, mas ficam porque encontram uma comunidade”, disse ele. “Na verdade, são os relacionamentos que os fazem voltar.”

Obviamente, esses espaços não são vistos como um local espiritual, mas o estudo identificou que muitos “religiosamente não-afiliados” acabam se identificando com uma proposta de vida atraente.

Em entrevista ao site VOX, o professor Ter Kuile destaca que, de muitas maneiras, as pessoas estão encontrando significado religioso em locais totalmente seculares. “Foi surpreendente [o estudo]. Ouvimos pessoas dizerem: ‘CrossFit é a minha igreja’ ou ‘a academia SoulCycle é como meu culto’…. É significativa a maneira como o espaço é montado, ou como você pode seguir um tipo de liturgia em uma aula, especialmente através do uso de luz e som”, assegura.

Foco no objetivo

Ainda segundo o estudioso, “o que as pessoas experimentam nesses locais é uma sensação de liberação de estresse ou têm uma nova clareza sobre o que é importante para elas ou mesmo um compromisso renovado com os objetivos em sua vida em meio à ansiedade e pressão de seu trabalho. Então, é realmente uma experiência emocional e espiritual, além de física”.

Vida comunitária

Na sua conclusão, após uma série de entrevistas com os frequentadores, professores e funcionários é que “existe uma necessidade de pertencer a uma comunidade. Isso era algo muito evidente em nossa pesquisa. As pessoas ansiavam por relacionamentos que tivessem significado, não apenas relacionamentos superficiais”.

Ter Kuile diz que “passar por uma experiência que testa os seus limites, especialmente se você está fazendo algo com um companheiro ou uma equipe, oferece uma ligação inevitável para quem enfrenta dificuldades juntos”.

Obviamente que, guardadas as proporções, a pesquisa da Escola de Divindade de Harvard identificou que a intensidade física oferece às pessoas “muito controle sobre sua experiência” no local e que “estes espaços lhe oferecem a liberdade de integrar e selecionar o que você quer fazer. Não é como uma teologia empurrada na sua cara”.

Ritual

Outro aspecto de destaque é que, nessas academias, existe um ritual.

“Todo ritual está ligado à intenção e a repetição… Por exemplo, muitas congregações cristãs fazem os fiéis repetirem uma oração como a do Pai-Nosso ao mesmo tempo todas as semanas… Nas academias, muitas pessoas estão fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo. Trata-se de um ritual. É uma ferramenta de tecido conjuntivo. Ele tira o foco do indivíduo e centra no coletivo… O ritual descentraliza nossas prioridades imediatas e nos dá um ritmo em um mundo onde perdemos muitos dos marcadores tradicionais do tempo”.



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