Presidente da Turquia tenta se consolidar como maior líder muçulmano

Erdogan já fala em “recuperar território” e ameaça Israel


Erdogan tenta se consolidar como o maior líder muçulmano

Está surgindo uma nova Turquia, que se distancia das décadas onde o Estado laico era a norma. O país está ficando cada vez mais religioso e o nacionalismo islâmico parece ser a nova regra do país comandado com mão de ferro pelo presidente Recep Tayyip Erdogan e seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP).

Após a tentativa de golpe do ano passado, ainda que possua muitas características de um ataque de falsa bandeira, gradualmente o governo vem suprimindo a liberdade de imprensa e intervindo nas escolas e tribunais, demitindo todos que não apoiem o regime proposto pelo AKP.

A economia da Turquia está em dificuldades e o país teme que a guerra no sudeste, na fronteira com Síria e Iraque, obrigue despesas militares não planejadas. Mas o que está mais visível nesse processo são as contínuas referências aos dias do Império Otomano.


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Extraoficialmente, Erdogan tenta se consolidar como o maior líder do mundo muçulmano, usando como base o antigo regime de califado que fez a Turquia ser o que é hoje. Isso poderá ter consequências dramáticas sobre todo o Oriente Médio pelas ameaças que ele faz de reconquistar os territórios antigos. Isso significa fincar bandeiras nas partes da Síria onde já possui posições do exército e tentar invadir Israel.

Em mapas usados em livros escolares, porções do Iraque e da Grécia são mostrados como pertencentes a Turquia. Paralelamente, há uma aproximação com a Rússia para a compra de um sofisticado sistemas de defesa. Os detalhes serão acertados em uma reunião com Putin em Moscou, dias 9 e 10 de março.

O primeiro-ministro Binali Yıldırım no mês passado falou em um discurso sobre Erdogan ser um descendente da linhagem de um sultão otomano bem conhecido. No ano passado, um dos líderes do AKP já anunciava que Erdogan “será o califa da Presidência”, e que em 2023 – quando a República turca completa 100 anos, “Allah irá encerrar a luz”.

Internamente, Erdogan procura se apresentar como parte de uma elite da liderança mundial, ao lado de Vladimir Putin e Donald Trump, que governam sem temer seus inimigos. E isso é algo que o presidente turco tem de sobra. Há 15 anos no poder, alternando cargos, ele conseguiu gradualmente afastar seu país da tradição secular de Mustafá Kemal Atatürk, que fundou o estado moderno das cinzas do Império Otomano em 1923.

Embora seja Membro da OTAN e aspire a adesão do seu país à União Europeia, Erdogan enfraqueceu os vínculos com o Ocidente, promovendo a religião como o centro da vida pública e usando isso para justificar seus atos impopulares.

O mais surpreendente de tudo é ver que em alguns lugares ele já vem recebendo honrarias e sendo tratado, literalmente, como o representante de Alá na terra.

Islã é a solução

Mustafa Akyol, um analista turco de política e cultura, e autor do livro “O Jesus Islâmico”, explica que a narrativa do presidente é dizer que a Turquia está enfrentando grandes problemas, mas que eles são criados por forças ocultas que conspiram contra a pátria.

Durante décadas, os militares foram um baluarte do secularismo – deram quatro golpes desde 1960 para impedir que os islâmicos governem. Contudo, o governo do AKP aponta para o Islã como a solução de tudo.

Este mês foi anunciado que as oficiais e cadetes do Exército foram oficialmente autorizadas a usar o véu como parte de seus uniformes. Outro exemplo é o grande investimento que o governo faz na construção de mesquitas.

Segundo o Departamento de Assuntos Religiosos, eram 78.608 espaços de culto islâmico em 2006, pulando para 86.762 no ano passado. Depois de anos de controvérsia, o exemplo mais gritante foi a Hagia Sofia, Igreja que virou mesquita que virou museu, e agora passou novamente a ser usado como espaço religioso.

O professor Akyol diz que se construiu um “nacionalismo com uma dose pesada do Islã, que está atraindo o apoio dos conservadores religiosos”.

Desde a pretensa tentativa de golpe em julho do ano passado, o presidente Erdogan renovou o “estado de emergência” duas vezes. Até agora, cerca de 125 mil pessoas foram demitidas de seus empregos públicos e cerca de 50 mil foram presas.

Em meio ao turbilhão político, o AKP convenceu até a oposição a modificar a Constituição para realizar o sonho de Erdogan de criar uma presidência executiva, o que para os seus críticos equivale ao posto de sultão moderno.

O ex-primeiro-ministro do AKP, Ahmet Davutoğlu, disse em 2015 que a Turquia “reconstituirá o Estado otomano”, reiterando que eles buscam restaurar o legado otomano. O que isso significa na prática?  Haverá um referendo nacional em abril, que pode consolidar a posição de Erdogan e restaurar no país a pena de morte.

Caso os rumos do país sejam os que são apontados por especialistas, Erdogan pode se encaminhar para a declaração de califa, o que significa ser o maior líder do mundo muçulmano. Ao falar sobre a restauração do Império Otomano, a maior ameaça recai sobre Israel, que foi subjugado e ficou sob seu domínio entre 1517 e 1917.




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