Reverendo Marcos Amaral explica sua posição a respeito de Feliciano

Pastor na Igreja Presbiteriana de Jacarapaguá, ele comenta sobre seus trabalhos com as minorias do RJ.


Marcos Amaral explica sua posição a respeito de Feliciano

O reverendo Marcos Amaral retirou o texto em que citava o deputado Marco Feliciano de seu blog, pois, segundo ele, não conseguiu se explicar direito, gerando muita confusão entre os internautas que não entenderam sua mensagem.

“É inegável que, quando escrevi um artigo sobre os últimos acontecimentos – e, em determinado trecho fiz referência ao Pr. Marco Feliciano –, não consegui atingir o que desejava, e consequentemente promovi um dissabor entre o povo de Cristo”, escreveu.

O pastor se sentiu culpado por não cumprir com o que diz a Bíblia. “Acabei descumprindo a orientação da palavra de Deus em Colossenses, quando recomenda que nossas palavras sejam sempre agradáveis e temperadas.”


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Com mais de 20 anos de ministério, ele resolveu escrever um novo texto para falar sobre o que ele realmente acha que está faltando aos cristãos brasileiros: “A Paz no corpo de Cristo”.

No artigo, o reverendo fala sobre seus trabalhos com líderes de outras religiões e esclarece qual é a relação entre eles, incluindo seus trabalhos na Comissão Contra a Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro.

Leia na íntegra:

 * Rev Marcos Amaral

A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um”. Cl 4.6

É inegável que, quando escrevi um artigo sobre os últimos acontecimentos – e, em determinado trecho fiz referência ao Pr. Marcos Feliciano –, não consegui atingir o que desejava, e consequentemente promovi um dissabor entre o povo de Cristo. Acabei descumprindo a orientação da palavra de Deus em Colossenses, quando recomenda que nossas palavras sejam sempre agradáveis e temperadas.

Obedecer a palavra de Deus é algo em que tenho muito prazer, e, portanto, deixo claro que não desejei e não desejo o mal a quem quer que seja, dentro ou fora da igreja.

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Ef 5.15,16

Vivemos um singular e importante momento na história nacional, em que temas afeitos à família e à Igreja têm sido discutidos intensamente pela sociedade. Esse cenário não é gratuito ou espontâneo, pois sabemos que o Brasil está no centro da discussão mundial, não só pelos aspectos econômicos e sociais, mas também pelas motivações religiosas.

O Brasil hoje tem sido considerado o “pulmão religioso do mundo” em razão de sermos nós a maior massa de evangélicos frequentadores de santuários e católicos em todo globo. Por essa razão, há uma verdadeira romaria de antropólogos, sociólogos e teólogos de toda parte do planeta que vêm pesquisar esse fenômeno sócio-religioso.

Entretanto, ao mesmo tempo, há um crescimento de correntes fundamentalistas, que tem feito aumentar tanto os debates religiosos, como os múltiplos casos de intolerância religiosa, especialmente contra as minorias.

Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele”. I Co 9.22,23

Desde há muito me sinto chamado por Deus a trabalhar junto à populações marginalizadas. Minha vida cristã e ministerial se pauta, há mais de 20 anos, a partir de um total alinhamento com as ações afirmativas, o que pode ser definido como a constante luta pela diminuição das diferenças sociais, em denúncia contra todo tipo de discriminação e combate radical a qualquer expressão de intolerância religiosa. Sempre acreditei que, fazendo assim, estaria cumprindo o “ide” do Mestre, e me fazendo colaborador do evangelho.

A questão da polarização entre o povo evangélico e os não-evangélicos acabou tomando contornos internacionais, exigindo uma posição da Organização das Nações Unidas – ONU. O organismo enviou comissários ao Brasil para que realizassem pesquisas sobre esse problema nas principais capitais brasileiras, que concluíram ser o Brasil, de fato, um país intolerante, especialmente no que se refere ao convívio pacífico junto às populações que professam religiões de matriz africana.

“… a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. I Co 5.20,21

Foi todo esse cenário que gerou a criação no Rio de Janeiro da Comissão Contra a Intolerância Religiosa – CCIR, organização para a qual fui convidado, na condição de único membro evangélico, com o claro objetivo de transparecer a voz do Evangelho de Jesus, que não impõe, mas convida. Evangelho que não aniquila, mas respeita. Evangelho que não negocia suas convicções, mas convive em meio a diferença.

A CCIR é o significativo extrato da sociedade, sendo formada por religiosos dos mais variados seguimentos:  mulçumano, judaico, evangélico, católico romano, umbandista, candomblecista, kardecista. Além disso, a CCIR é composta também pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através de seus órgãos: Ministério Público, Policia Civil; e pelo Poder Judiciário; além de receber o apoio de vários acadêmicos, representantes das universidades.

Ou seja, forma-se um colegiado representativo do extrato da sociedade fluminense como um todo, sendo a minha presença ali a única voz que representa o cristianismo evangélico, o que é muito desafiador e difícil para mim, especialmente em razão de vivermos aqui no Brasil uma situação de constante intolerância religiosa. Tanto é assim, que sofro seguidos ataques nessa tentativa de promoção de respeito entre as religiões, e minha imagem e reputação são frequentemente insultadas.

Acredito que essas iniciativas sejam geradas por simples desconhecimento dos meus reais objetivos, o que espero que cesse a partir desse artigo. Imagino que parte das pessoas que me ataquem tenham ideias erradas sobre mim. Estou aqui também com esse objetivo, o de esclarecê-las sobre minha trajetória.

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.

O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Mt 5.35,36 e 40

Meu chamado para trabalhar junto às minorias se deu em 1992, tendo trabalhado como capelão voluntário com portadores do vírus HIV, no Hospital Universitário Gafree e Guinle. Atendia pessoas que eram marginalizadas, em sua grande maioria pobres, negros e homossexuais. Também por essa ação, eu era fustigado com questionamentos e desestímulos a essa prática. Anos depois, passei a trabalhar com dependentes químicos. Muitos deles, pobres e negros, e por vezes até marginais. Também, nessa época, fui tratado com estranheza e hostilidades por alguns. E finalmente, desde 2008 tenho atuado na Comissão contra a Intolerância Religiosa, também como voluntário, na luta constante contra qualquer tipo de discriminação: racial, de gênero, e, claro, à liberdade de crença de todas as pessoas – não somente das que concordam comigo.

Nesses últimos anos, como membro da CCIR, tenho sido alvo de constantes calúnias e ataques de determinados seguimentos, no próprio meio evangélico, que causam enorme confusão ao público cristão. Há pessoas que afirmam que sou defensor de umbandistas e candomblecistas, satanista e coisas do gênero! Tendo em vista que minha imagem tem sido veiculada por programas de televisão e jornais em companhia de religiosos de outras confissões, e como eventualmente sou entrevistado em torno de temas que debatem a questão da intolerância, coisas absurdas são afirmadas sobre mim.

Cabe aqui frisar que a Comissão contra a Intolerância Religiosa não prega sequer o ecumenicismo, ou mesmo diálogo religioso, mas, sim, cidadania, ou seja, os valores que pertencem às sociedades democráticas, tais como: a liberdade de consciência e de fé; o respeito às diferenças; e a criminalização de toda e qualquer forma de preconceito.

“mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação”. I Pe 2.12

Ontem pude, mais uma vez, provar das misericórdias de Deus, pois fui homenageado com o prêmio Camélia da Liberdade, na categoria “personalidades”, que é um importante reconhecimento concedido pela sociedade civil a pessoas que colaboraram de forma determinante no campo das Ações Afirmativas. Por conta disso, concedi uma entrevista para o Jornal o Globo, que possivelmente, nesta semana, veiculará minha imagem ao lado de uma mãe de santo e de um frei. Estar respeitosamente ao lado das pessoas de outra religião significa o que? Que sou umbandista também? Que defendo o candomblé? Que sou católico? Ou sou um satanista? Quem sabe um bruxo? Sou o braço do PT na defesa das religiões afrodescendentes? Todas essas afirmações sobre mim vi veiculadas nas redes sociais, sem nenhum fundamento, responsabilidade ou compromisso com a verdade. Há apenas a motivação de ferir, caluniar e difamar.

“Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho”. I Co 9.16

Permitam-me dizer quem sou e a quem defendo: sou casado, tenho dois filhos adultos, pastor presbiteriano há 22 anos, tendo pastoreado apenas duas igrejas desde minha ordenação como pastor, sendo este o 18º ano que estou à frente da igreja presbiteriana de Jacarepaguá. Sou capelão do projeto social Ação Querer Bem, mantido por minha igreja que ampara 140 crianças em risco social. Sou presidente do meu querido Presbitério Jacarepaguá há três anos, atual presidente do Sínodo da Guanabara. Na vida acadêmica e profissional sou professor, psicólogo e escritor, mas, acima de tudo isso, sou servo de Jesus Cristo, a quem busco seguir, mesmo em meio a tantas incompreensões e perseguições injustificadas.

Continuarei a pautar minhas ações da mesma forma que tenho feito até hoje, fazendo silêncio diante dos ataques sofridos, ainda que injuriosos, caluniosos e difamadores, e atenderei sempre, com fidalguia e espírito cristão, a todos aqueles que me procurarem para externar suas convicções, dúvidas e críticas aos meus posicionamentos. Pois, para mim, o respeito, além de um gesto de cidadania, é, sem dúvida, uma marca do cristianismo verdadeiro.




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