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Moçambicano relata situação dos cristãos no país

Situação é preocupante, mas não está fora de controle


Moçambicanos fugindo da perseguição
Mais de 10.000 pessoas fugiram do conflito em Moçambique para se refugiarem no Malawi. (Foto: Justin Pearce)

Diversos sites cristãos repercutiram o aumento da perseguição aos cristãos na região norte de Moçambique nas últimas semanas. Há relatos que jihadistas de um grupo chamado Al Shabbab invadiu aldeias, queimando 230 casas e decapitando 23 cristãos, incluindo crianças.

Um pedido de oração, dos missionários Rolland e Heidi Baker, conhecidos pelo trabalho do ministério Iris Global na África, correu o mundo. Eles diziam que a situação na região de Pemba, onde moram estava “fora de controle”.

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Contudo, moçambicanos dizem que as informações estão distorcidas. Daniel Buanaher, 26 anos de idade, que nasceu em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, e atualmente faz faculdade no Brasil, falou ao Gospel Prime sobre o assunto.

Evangélico, Buanaher mantém contato com familiares e amigos e ouve relatos sobre a situação em primeira mão.

1) O que se sabe sobre a situação das aldeias incendiadas e as pessoas decapitadas?

Para entender melhor a situação, é preciso dizer em outubro do ano passado um grupo terrorista começou a fazer ataques contra as delegacias da polícia moçambicana, edifícios do governo e casas da população. Isso aconteceu no distrito de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado.

Forças militares do governo fizeram bombardeios em Mocímboa da Praia, resultando na morte de dezenas de pessoas e ferindo outras centenas. Cerca de 500 pessoas foram detidas, acusadas de ligação com o grupo extremista islâmicos. Com isso, deu aos moradores a sensação de que havia conseguido controlar a situação.

Contudo, nas últimas duas semanas, ficou claro que esse terror ainda não havia terminado. Dois ataques na mesma região deixaram uns 20 mortos e centenas de casas incendiadas.

Obviamente, a população ficou alarmada. Muitos estão fugindo para poder salvar suas vidas e se tornaram refugiados no mato ou em ilhas.

Quando vi fotos e vídeos de pessoas sendo decapitadas, casas e outros bens da população sendo queimados, pensei: “Deus do céu!, meus irmãos estão passando pelo inferno, estão caminhando pelo vale da sombra da morte”.

Qualquer pessoa direita condenaria veementemente todo aquele massacre, aquelas mortes, aquele genocídio indistinto. O tempo passou e a população local não viu nenhum posicionamento político/militar do governo, o que é, no mínimo, suspeito. Quando o povo espera que o governo lhes garanta segurança e isso não ocorre, começa a gerar tumulto. Foi o que aconteceu.

Há quem esteja espalhando por aí que jihadistas muçulmanos estão a caça de cristãos para matá-los. Não é bem assim. O assunto é muito mais complexo do que se pensa. Acho que as pessoas se esquecem de que para que uma boa comunicação exista é preciso haver coerência entre a mensagem recebida e a emitida. Os terroristas supostamente muçulmanos não estão a atacar apenas cristãos. Estão a atacar toda a população, e isso por si só já é macabro.

No início da semana passada, pelo menos sete pessoas foram mortas por atacantes armados com catanas  [facões] na província de Cabo Delgado.

2) Por que o governo dos EUA pediu para seus cidadãos sair do país se as coisas estariam fora de controle?

Mocímboa da Praia e Palma, locais onde se iniciou a onde de violência, estão a apenas 80 km das reservas de gás que estão a começar a ser exploradas por empresas italianas, americanas e, salvo o engano, canadenses. Algumas destas organizações (incluindo a Anadarko, que é norte-americana) começaram já a retirar trabalhadores, temendo mais ataques. As empresas começaram a tomar algumas medidas para manter a integridade física dos seus funcionários.

3) O irmão conhece o ministério da irmã Heidi Baker? Como ele é visto em Moçambique?

Conheço. Nasci em Pemba, onde fica a sede do ministério da Mamã Aida (é assim que o povo a chama). O ministério Iris Global atua em Pemba e em outras partes de Moçambique há bastante tempo. Conheço muitas ajudas humanitárias que eles prestam para os desfavorecidos nas áreas de educação, habitação, alimentação, entre outras.

O que eles fazem por lá é importante. O povo se alegra e agradece quem se mostra amigo e o ministério da Mamã Aida é um deles.

4) Esse grupo chamado de Al Shabbab é conhecido no país? Existem casos de terrorismo islâmico no país? Se não, por que tantos sites de notícias estão divulgando isso?

Não há uma informação precisa sobre esse grupo. A população os apelida de “Al-Shabab” (significa “juventude”), um grupo terrorista que atua na Somália. Mas há também fontes confiáveis que afirmam que o grupo responsável por estes ataques chama-se Ahlu Sunnah Wa-Jammá (adeptos da tradição profética e da congregação). Não se sabe ao certo quem são. Os analistas dizem que os ataques apresentaram traços de extremismo islâmico.

Independentemente do nome, quando se trata de um grupo terrorista islâmico, sabemos que geralmente querem impor a lei da sharia. Eles fazem isso lutando contra qualquer um que, segundo eles, não respeita os verdadeiros ensinamentos do profeta Maomé.

Porém, há quem diga que o grande objetivo não tem nada a ver com a lei islâmica. O objetivo é criar oportunidades de negócio para as elites informais da região de Cabo Delgado, que tem uma das maiores reservas de gás do mundo, além de marfim, rubis, safiras, petróleo e madeira em abundância. A conquista dessas riquezas pode ser a causa dessa militância terrorista. Como podemos perceber, o problema não é tão simples quanto parece.

5) Qual a necessidade dos cristãos moçambicanos nesse momento?

O que eu peço é que a igreja possa orar pelos irmãos moçambicanos. Aqueles que forem considerados culpados por terem perpetrado tais atrocidades devem ser julgados como manda a lei. A impunidade deve ter um fim!

Perder um parente de sangue, amigo ou conhecido não é uma experiência agradável. Imagine ter que perder alguém que ama nessas condições e saber que sua vida também corre risco? É realmente macabro.

Ajudem-nos em oração para que isto que já está a se tornar num círculo vicioso no norte seja quebrado em nome de Jesus. É tempo de nos unir, povo de Deus, para que o amor, a paz, a justiça, a vida vença mais uma vez!



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