“Novo Estado Islâmico” poderá ser de viúvas e filhos dos jihadistas mortos

Terroristas deram às mulheres que os seguiam um mandato para matar.


"Novo Estado Islâmico" poderá ser de viúvas e filhos dos jihadistas

O jornal The Washington Post entrevistou viúvas que saíram do território do califado antes de seu fim, há cerca de seis meses.

Uma delas, chamada Zarah, uma marroquina de 20 anos, concordou em falar desde que seu sobrenome não fosse revelado. Avaliando o que deixou para trás, jurou que algum dia seus filhos retomariam o paraíso que ela acreditava ter sido roubado de sua família.

“Vamos criar filhos e filhas fortes e contar a eles sobre a vida no califado”, afirmou entre uma xícara de chá e outra. “Mesmo que não sejamos capazes de mantê-lo, nossos filhos um dia irão recuperá-lo”, acredita.

O discurso de fidelidade de Zarah ao Estado Islâmico é impressionante, tendo em vista os potenciais problemas judiciais enfrentados pelos simpatizantes do grupo radical que procuram voltar aos seus lares. As autoridades de unidades de contraterrorismo acreditam que o sentimento expressado por ela não seja incomum.

Nos últimos meses, centenas de mulheres que viviam no território dominado pelo EI fugiram da guerra e se restabeleceram em seus países de origem. Elas acompanhavam grupos que contavam com crianças, adolescente e até alguns jihadistas. A maioria se misturou à onda de imigrantes e buscou abrigo em centros de apoio ou campos de refugiados ao longo do caminho.

A grande maioria tem filhos pequenos e contam que foram obrigadas a viajar para o Iraque ou Síria para encontrar seus maridos. Um número inquietante, porém, parece ter abraçado a ideologia dos esposos que morreram nos conflitos e hoje se esforçam para manter vivo os seus ensinamentos.

Desde o Norte da África até o Leste Europeu, os oficiais de fronteiras estavam treinados para lidar com soldados que haviam lutado pelo califado. Mas vêm se deparando com centenas de mulheres e crianças e não sabem muito bem como lidar com isso. Poucas delas lutaram nas batalhas de fato, mas os governos as consideram como ameaças “em potencial” em um futuro próximo.

Como o fim do califado na Síria e no Iraque, os líderes do EI sobreviventes têm deixado instruções explicitas para que suas companheiras retornem e preparem novas missões, como ataques suicidas. Elas também se comprometem a treinar os descendentes, para que se tornem futuros terroristas.

“Definitivamente, há mulheres que assumiram papeis importantes no grupo”, avalia Anne Speckhard, diretora do Centro Internacional de Estudos do Extremismo Violento, uma ONG que faz pesquisas de campo sobre desertores e defensores do Estado Islâmico. A maioria diz que deseja que os filhos cresçam para se tornar “mártires”, termo usado por elas para se referir aos terroristas suicidas.

O fluxo de soldados saídos do Norte da África e da Europa para lutar pelo EI desacelerou no ano passado, quando a coalizão liderada pelos Estados Unidos fechou rotas que levavam suprimentos ao grupo e destruíram suas últimas fortalezas. Poucos combatentes do sexo masculino voltaram para casa.

Em vez disso, os consulados de países do Norte da África e na Turquia foram procurados por centenas de mulheres e crianças buscando permissão para regressar.

Um alto funcionário do governo do Marrocos diz que “Todas contam a mesma história: seus maridos aderiram ao grupo por causa dos benefícios financeiros e elas os seguiram porque não tinham escolha”. Só que as autoridades não têm como investigar a fundo cada caso e a maioria simplesmente está voltando para seus países sem que seja possível identificar quem elas realmente são e que perigo representam.

Ordens para matar

Mesmo fora do califado, os sinais da influência do Estado islâmico persistem. A maioria das mulheres entrevistadas continua usando o véu negro [niqab] exigido pelos militantes islâmicos, pesado que cobre tudo, exceto os olhos.

“É meu direito, posso usar o que quiser”, afirma Umm Khaled, outra viúve repatriada recente que voltou para casa com três filhos, incluindo um que nasceu no território do Estado islâmico. Embora negue que seja uma radical, ela ensina: “Allah deu o niqab às mulheres”.

Há casos como o de Zarah, que afirma ter sido dela a iniciativa da família mudar para a Síria. Ela convenceu seu primeiro marido a se juntar ao grupo terrorista em 2014.  “Na verdade, empurrei meu marido para a viagem. Ele logo se tornou um mártir, graças a Allah. Eu o amava, mas todos devemos nos sacrificar por nossa crença”, defende.

Para muitas das mulheres, suas obrigações vão muito além da criação de futuros terroristas. Nos últimos meses, quando o número de jihadistas homens caiu drasticamente, muitas delas se envolveram em operações militares, tanto no território do califado quanto em seus países de origem.

Desde a fundação do Estado Islâmico, seus líderes deram às mulheres que os seguiam um mandato para matar.

Em um caso recente, num último esforço para defender Mosul, a capital iraquiana do EI, comandantes pediram que dezenas de mulheres suicidas se apresentassem. Foi em vão, pois eles acabaram perdendo o controle da cidade para o exército do Iraque. Numa outra situação conhecida, em setembro de 2016, os líderes sírios do grupo ordenaram que uma célula de cinco mulheres francesas realizassem um atentado terrorista no centro de Paris, que acabou dando errado.

Para incentivar mais mulheres a se juntarem, o órgão oficial de propaganda do Estado islâmico, al-Naba, passou a utilizar a imagem uma famosa guerreira da história inicial do Islã.  Nusaybah bit Ka’ab, membro de uma tribo do século 7 tomou uma espada para ajudar o profeta Maomé quando ele estava, alegadamente, cercado por inimigos em uma batalha.

“Não deveria ser estranho para as mulheres muçulmanas terem a mesma disposição para sacrifício e demonstrarem amor pela fé, assim como suas antecessoras que apoiam o Islã”, diz o material, de acordo com uma tradução do SITE Intelligence Group, uma organização privada que monitora a mídia islâmica.

Rita Katz, analista de terrorismo e fundadora do SITE, avalia que “O novo chamado do EI permitirá que as esposas e filhas dos jihadistas comecem a realizar ataques. Eu não ficaria surpresa em ver um aumento de mulheres começando a fazer atentados no estilo do EI no Ocidente”.




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