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“Onde diz na Bíblia que eu não posso cantar samba?”, questiona intérprete de escola

Alguns evangélicos não veem problema em participar da "festa da carne"


Anderson Paz
Anderson Paz, 44, evangélico e intérprete de escola de samba do grupo de acesso do Rio (Ricardo Borges/Folhapress)

Como todos os anos, na época do Carnaval, muitos evangélicos participam dos desfiles e da ‘folia’ sem achar que isso contradiga a sua fé.

Um exemplo disso é Anderson Paz, 44, que começou a cantar samba na infância, num bloco da favela da Maré, onde foi criado. Ele viveu uma vida conturbada e teve 10 filhos. “Meu único problema espiritual era essa coisa do envolvimento entre homem e mulher, promiscuidade”, relata.

Já adulto, se converteu, em uma Igreja Batista. “Quando ouvi o louvor, senti que era aquilo que precisava. Tudo o que vinha do altar parecia falar comigo”, lembra. Ali, o pastor dizia que Carnaval era coisa do diabo. Anderson optou por abandonar o samba e abriu uma venda para se manter.

Na igreja, era conhecido por ser um ex-intérprete. Porém, um ano depois, foi para outra igreja, a Cristo Vive, onde o pastor lhe deu apoio para voltar. Este ano entrará na avenida como intérprete da Inocentes de Belford Roxo, escola do grupo de acesso.

“Onde diz na Bíblia que eu não posso cantar samba? A palavra de Deus diz que o dízimo vem do salário. Meu dinheiro vem do meu trabalho, então é abençoado”, raciocina.  Para ele, os desfiles podem ser um local para testemunhar. “Nos momentos oportunos, inclusive, levo a palavra aos amigos. Se me procuram, eu falo”, diz.

Tatiane Oliveira, 34, tem uma história diferente. Foi musa e passista, mas hoje é secretária do presidente de honra da Grande Rio. Ela diz que não voltaria a desfilar na avenida.

Conta que frequenta a igreja Assembleia de Deus Ministério Shalom Adonai, mas não é batizada. “Acho que seria um desrespeito participar do Carnaval. Igreja tem doutrina, regras”, explica. Mas sua decisão é não abandonar a folia. “Se estou aqui [na Grande Rio] é porque tem um propósito para mim. Deus faz tudo certinho”, assegura.

Do outro lado há casos como o de Cahê Rodrigues, carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense. Ele foi batizado na Sara Nossa Terra, mas prefere não ser chamado de evangélico. “Não gosto de rótulos. Prefiro dizer que sou temente a Deus, alguém que tem uma fé inabalável.”

Rodrigues conta que já houve orações em grupo no barracão da escola. Ele costumava deixar a Bíblia em cima da mesa, mas parou. “Sentia que agredia as pessoas, elas entravam e olhavam”.

Distanciamento

Por tradição, muitas igrejas aproveitam essa época do ano para fazerem retiros espirituais. Conforme lembra Jacqueline Moraes Teixeira, antropóloga e pesquisadora da USP que estuda religião, “Tem igrejas que organizam retiros para os fiéis durante essa época porque há a ideia de que a cidade toda está contaminada. O fiel tem que se retirar para se preservar”.

Ela lembra que existe uma prática dos evangélicos no Brasil de distanciamento de festas populares que remetam a alguma divindade, com o Carnaval e a festa junina. A percepção mais comum é que, mesmo que disfarçada, existe uma forma de culto a imagens e a santos nessas ocasiões.

Mais recentemente, algumas denominações decidiram ir para a rua, em atividades que mesclam a fé e a folia. “Tem igrejas com forte presença urbana, como a Sara Nossa Terra e a Bola de Neve, que pensam os jovens e têm um discurso ideológico que dialoga mais com a cidade. Essas acabam tendo uma postura mais inclusiva”, resume Teixeira. Com informações Folha de SP



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