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“Tragédia de Linhares” revela dificuldade da igreja em tratar escândalos

Um dos pastores de denominação se desligou, alegando "falta de confiança"


George Alves
George Alves e esposa em culto. (Foto: Reprodução / Facebook)

A chamada “tragédia de Linhares” – incêndio que resultou na morte dos irmãos Kauã, 6 anos, e Joaquim, 3, em 21 de abril – chamou atenção para uma questão delicada no meio evangélico: a maneira como a Igreja deve tratar os escândalos.

O casal de pastores Georgeval Alves Gonçalves e Juliana Salles está preso, acusado de terem premeditado o crime. A polícia diz que George, como o suspeito é mais conhecido, teria estuprado e espancado as crianças e colocou fogo na casa para encobrir seus atos. No telefone de Juliana haveria indícios de que ela sabia da intenção dele e que ambos usariam a tragédia para benefício próprio e verem um crescimento na igreja que lideravam em Linhares, norte do Espírito Santo. Os advogados deles negam as acusações.

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Até o momento não houve nenhum pronunciamento da denominação sobre a situação, mostrando que existe uma grande dificuldade de muitas igrejas evangélicas em tratar publicamente de situações que arranhem a imagem da igreja diante de sociedade. Ainda que existam instruções bíblicas específicas sobre isso, elas não são seguidas à risca quando atingem a liderança.

Pai cobra denominação

Um protesto contra a violência sofrida por crianças e adolescentes ocorreu neste domingo (1), na orla da Praia de Camburi (ES) reuniu dezenas de pessoas. Seu organizador foi o comerciante Rayni Butkovsk – pai de Kauã e primeiro marido de Juliana.

Durante a manifestação, Rayni cobrou abertamente um posicionamento do Ministério Batista Vida e Paz, denominação que reúne várias igrejas em MG e ES. “É uma congregação. Eles cuidam de crianças, cuidam de famílias. Como que em nenhum momento falou do luto pelas crianças ou declarou alguma coisa? Só pegaram a Juliana e guardaram dentro de casa. Eles têm que dar algum pronunciamento”, desabafou.

“Com a prisão do George e com os fatos que foram revelados sobre o plano macabro deles e toda a falsidade desde o início, a igreja ainda não se manifestou”, asseverou.

Pastor se desliga

Ao mesmo tempo, o pastor Abisai Junior, amigo do casal de pastores presos, anunciou sua saída da Igreja Batista Vida e Paz, que ele liderava em Conceição da Barra, norte do Espírito Santo.

Ele publicou um vídeo nas redes sociais, onde afirma “não concordar com muitas coisas e não confiar na igreja”. Sem dar maiores detalhes, disse esperar “que todos entendam a minha posição e a razão de eu estar fazendo isso”.

Abisai tomou a decisão cinco dias após tornar-se alvo de investigação do Ministério Público do Espírito Santo. Ele é suspeito de prestar falso testemunho à Polícia Civil. Dias após o incêndio, ele prestou depoimento em favor do casal de pastores, a pedido dos advogados de defesa de Georgeval.

Durante culto em sua igreja, um dia após a morte das crianças, Abisai pediu ofertas, para entregar ao casal Juliana e George para “reconstruir a vida deles”. Há registros que o mesmo ocorreu em todas as Igrejas Batistas Vida e Paz.

Silêncio da denominação

Fundada pelo apóstolo Luiz Fernando Duarte e sediada em Governador Valadares, Minas Gerais, a Ministério Batista Vida e Paz não é ligado às grandes denominações batistas do país.

O pastor e diretor-geral das Convenção Batista do Estado do Espírito Santo, Diego Bravim, explica que a utilização do nome “batista” não pode ser proibida: “A marca (batista) não é patenteada, então qualquer pessoa pode usar, como Assembleia de Deus […] Mas nem todas, por carregarem o nome Batista, são filiadas propriamente a uma igreja Batista. E aí você não tem esse controle, de vetar qualquer tipo de uso do nome ou da marca porque ela não é patenteada, não é exclusiva”.

Segundo Abisai Júnior, George, que era cabeleireiro em São Paulo, tornou-se pastor depois que mudou de estado. “Ele se tornou líder no Espírito Santo, mas não é formado em teologia”, lembra.

Após sua prisão, a Igreja Batista Vida e Paz de Linhares, que chegou a reunir 300 pessoas trocou a liderança. Não houve qualquer manifestação da denominação sobre os pastores presos continuarem sendo parte dela. Com informações G1 e Gazeta Online



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